06/06/2026

Honesta opinião sobre o livro "O Caminho do Tarot", de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa

Há alguns dias, eu dei uma passada no Wikipedia para ler o que consta por lá sobre Tarô de Marselha. E eu me deparei com o seguinte trecho:

"Para o uso do Tarot de Marselha como arte divinatória, podemos afirmar que o estudo de Alejandro Jodorowsky, realizado no fim do século passado, é a forma mais próxima da verdade que encontramos na literatura..."

Quando chequei essa mesma página do Wikipedia sobre Tarô de Marselha em inglês, eu não encontrei tal afirmação, apesar de citar os estudos de Jodorowsky.

E a página em português continua:

“...Como não conhecemos o autor dos desenhos ou da estrutura original das cartas, o livro “O Caminho do Tarot” de Jodorowsky e Marianne Costa nos dá uma visão completa e sem deturpação ou correspondências com outras formas ocultas...”

Será mesmo? Essas afirmações já me inspiram diversas ponderações. Seria o estudo de Jodorowsky "o mais próximo da verdade?" E esse estudo realmente "nos dá uma visão completa e sem deturpação"? 

Jodorowsky é um mestre, sem dúvida. Ele certamente estabeleceu uma relação íntima com o Tarô - relação esta que deveria ser o propósito de todo e qualquer tarólogo. No entanto, sua obra não está imune a críticas ou opiniões divergentes. Contestar ou criticar algumas informações publicadas pelo famoso autor sobre o Tarô de Marselha ou algumas especificidades do deck de Tarô publicado por ele e Camoin em 1997, não é (ou pelo menos não deveria ser) desmerecer todo o trabalho e conhecimento dele. Achei importante iniciar dessa forma antes de ser queimado em praça pública por seus muitos alunos e seguidores devotos. Agora já posso abordar as críticas. E lembrando que as minhas críticas não são exatamente originais. Vários estudiosos do Tarô de Marselha já fizeram críticas semelhantes, e quando eu adquiri este livro, minha intenção não era apenas absorver algum conhecimento, era também conferir se eu concordo ou não com elas.

Na introdução do livro "O Caminho do Tarô" (Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa, publicado no Brasil pelo Selo Chave da Editora Campos), Jodorowsky nos conta um pouco sobre como começou sua relação com o Tarô, até o momento em que decide fazer uma restauração do Tarô de Marselha depois de conhecer Philippe Camoin, descendente de uma tradicional família que imprimia o Tarot de Nicolas Conver, em Marselha, na França.

Para realizar a restauração, Jodorowsky e Camoin percorreram por museus diversos, conseguindo fotografias de Tarôs. Também tiveram acesso a pranchas antigas de impressão pertencentes a família de Camoin. Com a ajuda de computadores, eles fizeram sobreposições de cartas de diferentes versões do Tarô de Marselha. A todo momento, Jodorowsky deixa claro seu intuito e sua abordagem: em sua concepção, analisando as diferenças e semelhanças entre essas várias versões, ele chegaria o mais próximo possível a um modelo supostamente original do Tarô de Marselha, do qual todos os outros Tarôs de Marselha derivam.

Em certo momento, Jodorowsky comenta sobre sua frustração inicial por não ter um Tarô de Marselha completo pintado à mão, até lembrar-se de um antiquário no México onde havia, segundo ele, um desses exemplares à venda. E ele conseguiu o tal exemplar, que serviu como a peça que faltava para concluir a restauração, com os detalhes e as cores de acordo com o que deveria ser "o modelo mais fiel" de um Tarô de Marselha.

Existe nessa história toda algo que não soa muito verossímil. Esse antigo Tarô pintado à mão, qual seria? Onde está? Por que uma peça digna de um importante museu estaria esquecida num antiquário no México? Por que esse deck não foi apresentado?

Esses questionamentos nos levam a outra questão ainda maior: será que existe mesmo esse tal modelo original de Tarô de Marselha, do qual os outros fabricantes de cartas copiaram com "erros e imprecisões" (palavras do próprio Jodorowsky)?

Sabemos que um Tarô foi influenciando o outro, é fato. Os Tarôs de Jean Noblet e de Pierre Madenié, antigos fabricantes de cartas, possuem uma importância grande na simbologia e estrutura dos Tarôs de Marselha mais usados nos dias de hoje, mas mesmo esses fabricantes basearam-se em outros Tarôs, placas de impressão ou fontes ainda mais antigas. Noblet, por exemplo, imprimiu seu Tarô por volta de 1650 - o primeiro a representar a carta da Lua com o tanque de água e o lagostim, já que os Tarôs anteriores representavam a Lua de outras formas. Porém, existe uma folha impressa com cartas de Tarô não recortadas, proveniente de Milão, fabricada por volta do ano 1500, onde já se tem uma Lua com o tanque de água e o lagostim. Portanto, temos uma estupenda lacuna de 150 anos entre essa folha impressa na Itália e o Tarô francês de Noblet.

Para dificultar ainda mais a tentativa de se precisar uma única fonte dos Tarôs de Marselha, muitos antigos fabricantes de cartas adquiriram moldes de outros fabricantes e apagaram as datas e nomes dos criadores que constavam originalmente neles. Nem mesmo o Tarô de Marselha mais influente do mundo nos dias de hoje, o de Nicolas Conver,  nascido em 1784, usou os próprios moldes. Ele comprou ou herdou esses moldes, mantendo apenas a data original deles, de 1760.

Ao sobrepor imagens de vários Tarôs diferentes para definir quais detalhes são originais ou não, teremos como resposta uma restauração de um "fiel e legítimo" Tarô de Marselha, como Jodorowsky tenta nos fazer crer?

A restauração de um baralho a uma condição original, propaganda principal de Jodorowsky e Camoin, não deveria estar vinculada a um baralho original? Qual baralho original serviu como base para eles criarem a restauração deles? Uma porção de baralhos diferentes sobrepostos? Um baralho misterioso que ninguém nunca viu vendido em um antiquário no México? É um tanto contraditório e duvidoso.

Se alguém está escolhendo, entre vários Tarôs do século XVII, quais símbolos, detalhes, cores e traços importam mais para a restauração de um legitimo Tarô de Marselha do século XVII, então ele deixa de ser um legítimo Tarô de Marselha do século XVII e passa a ser um Tarô moderno, baseado em vários Tarôs do século XVII. 

Talvez o maior equívoco da dupla seja a propaganda, por mais lucrativa que ela tenha sido. Eles (Jodorowsky e Camoin) poderiam ter deixado claro, desde o princípio, que o Tarô deles, sendo uma mistura de vários Tarôs, constitui-se num Tarô de Marselha moderno, não na restauração de um antigo e precursor Tarô de Marselha (que não existe).

Nessa estranha tática de restauração, a dupla passou a incrementar o Tarô deles com elementos que não existem em nenhum outro Tarô. Cartas como A Papisa e O Imperador ganharam ovos (literalmente) e cartas como A Imperatriz e a Temperança ganharam serpentes (literalmente). Eles poderiam ter deixado claro que esses detalhes estão presentes apenas no Tarô deles, ao invés de dar a entender que são "símbolos escondidos e perdidos" de Tarôs muito antigos.

Pequenos traços ambíguos são comuns em cartas feitas pelo processo de xilogravura e pintadas à mão há séculos atrás. Nós até podemos imaginar que esses traços formam desenhos que nos ajudam durante a leitura. O que não deveríamos fazer é modificar ou reforçar esses traços para corroborar com nossa própria visão e vender nossa imaginação como se ela fosse uma verdade secular e incontestável.

Repito: é um grande erro de propaganda. Prefiro um Tarô anunciado como modificado do que um Tarô modificado anunciado como reconstituição de um Tarô original.

Quanto à didática do livro na abordagem das cartas, o excesso da linguagem poética, das divagações profundas e da análise pessoal e subjetiva do autor, são fatores incômodos durante a leitura. A falta de clareza e objetividade na análise simbólica de cada carta é um fator negativo e desestimulador. Porém, é bem possível que aqueles que admiram o livro me considerem intelectualmente inapto para apreciá-lo - e talvez tenham razão. 

Eu já afirmei anteriormente, mas vou ressaltar: tenho certeza absoluta de que o Tarô de Jodorowsky/Camoin, com todos os seus detalhes (historicamente plausíveis ou não), rende leituras de cartas excelentes. Se você tem esse deck, o livro de Jodorowsky é muito útil. Mas se você quer estudar Tarô de Marselha e não possui esse deck, com toda honestidade, não recomendo o livro. 

Quando eu o leio, nunca esqueço de filtrar informações: aproveito o que me é útil no entendimento de todo e qualquer Tarô de Marselha e descarto tudo o que se refere apenas ao Tarô de Marselha que eles publicaram. Também descarto tudo o que me soa apenas fruto da mente criativa de um ousado e talentoso cineasta e escritor, artista por natureza (e grande tarólogo também, certamente).

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Quais leituras eu recomendo para aqueles que querem estudar Tarô de Marselha:

O livro "O Tarô de Marselha Revelado" (Ed. Pensamento), do grande Yoav Ben-Dov (descanse em paz, professor), antigo discípulo de Jodorowsky, é provavelmente a obra que eu mais indico. A abordagem peculiar do Ben-Dov é o que torna este livro tão especial. Ele nos inspira a interpretar as cartas com mais leveza e criatividade. Além disso, é a obra que abriu minha mente para a interpretação dos arcanos menores. Também gosto muito da trilogia "Tarô de Marselha - A Jornada do Autoconhecimento" (Ed. Pensamento), do francês Florian Parisse (especialmente o volume de capa azul). Apesar de não abordar os arcanos menores, a análise clássica, direta, simples e ao mesmo tempo abrangente do autor sobre as 22 cartas dos arcanos maiores foi bem importante para minha "formação autodidata" neste Tarô secular. 

Fonte dos dados históricos: "História do Tarô" (Ed. Pensamento), da Isabelle Nadolny.

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